04.02.2017 às 10:11
Opinião: “Vender” o voto é o combustível mais poderoso da corrupção na política
Quantas vezes ouvimos por aí de alguém que recebeu o dinheiro do candidato para votar nele, mas votou em outro, e a pessoa ainda diz que o candidato é um “babaca” e “pilantra”.
E, quando tentamos explicar que isto não é nada moral, o indivíduo retruca dizendo que mais imoral é o candidato e que “todo mundo faz isso”, recebe dinheiro e vota noutro. Esse “todo mundo faz isso” é a nossa mais crônica patologia corrosiva da ética.
Essa atitude do eleitor não é nada moral e é o combustível mais poderoso da corrupção. Vejamos, não é moral porque o eleitor está enganando, fazendo a mesma coisa que o candidato.
Talvez o candidato esteja sendo até mais sincero, pois dele nada poderá ser cobrado, até porque ele estaria comprando o voto, comprando a dignidade da pessoa, e tudo aquilo que tem um preço, ao adquirirmos podemos fazer com o “objeto” quase tudo que bem entendemos. Teria alguma legitimidade este eleitor para exigir algo de algum agente público eleito?
Quando o candidato compra votos (com dinheiro ou doando algum bem para o eleitor) o custo desta negociação terá que ser pago por alguém. E a operação Lavajato está aí para demonstrar o resultado. Nenhum candidato está disposto a tirar dinheiro do bolso para praticar o crime de compra de votos sem cometer outra ilegalidade para repor o dinheiro gasto.
Assim surgem os financiamentos escusos das campanhas políticas milionárias, no esquema do chamado caixa 2, ou seja dinheiro não declarado à justiça.
Estes financiamentos que possibilitam que o candidato transforme o voto do eleitor numa mercadoria, sem dignidade alguma, precisam ser pagos e o são com a prática de outros tantos crimes.
Financiadores cobram dos eleitos para serem contratados pelo poder público, de forma astronomicamente superfaturada. Fraudam licitações, por exemplo, como as que dilapidaram a Petrobras. Uma obra que custa um determinado valor é contratada por quantia dez vezes maior. Dinheiro que deixa de ser destinado para a educação, a saúde e a segurança. Tudo isso porque o seu voto se transformou numa mercadoria.
Sua decisão sobre seu voto mudará os rumos da sua comunidade. Não alimente a corrupção!
FABIO FRANCISCO ESTEVES, juiz de direito e presidente da Associação dos Magistrados do Distrito Federal. Mestre em Direito pela UnB. Professor de Direito Constitucional e Administrativo da Escola da Magistratura do Distrito Federal.
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